Um novo tempo para a educação  
A formação para EaD não se restringe aos aspectos pedagógicos e tecnológicos.
É preciso refletir sobre os novos processos de comunicação, sociais e psicológicos que ocorrem nas comunidades virtuais
Há 16 anos, Vani Moreira Kenski aborda o tema Educação a Distância. Professora e Doutora em Educação pela Unicamp, Vani é orientadora de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação da USP e pesquisadora do CNPq
na área de Tecnologia Educacional. Vani também é sócia-gerente da SITE Educacional, empresa que fundou em 2003, com o objetivo de realizar projetos e inovações pedagógicas em EaD, incubada no CIETEC - Centro Incubador de Empresas Tecnológicas, na USP.

Pode-se dizer que o envolvimento da especialista com a EaD teve dois momentos. O primeiro, em 1988, quando já era professora da Faculdade de Educação da Unicamp, realizou pesquisas sobre o uso de tecnologias de comunicação e informação em atividades de ensino. Posteriormente, criou, na Faculdade de Educação da Unicamp, o grupo de pesquisas MENT - Memória, Ensino e Novas Tecnologias, responsável por várias pesquisas sobre as novas formas de pensar, sentir e agir com a aplicação de novas tecnologias.

O segundo momento, mais prático, ocorreu a partir de 1999, quando Vani iniciou o projeto para desenvolvimento do Núcleo de Educação a Distância da Universidade Metodista de São Paulo, com pesquisas que acabaram culminando na criação da SITE Educacional. Confira abaixo, a entrevista exclusiva que Vani concedeu ao Universo EaD:

Universo EaD – Como a senhora vê o crescimento da EaD no Brasil?

Vani Moreira Kenski – O crescimento tem sido explosivo nos últimos cinco anos. A ênfase maior, no entanto, tem sido as atividades isoladas de treinamento, por meio de tutoriais, em que o aluno se vê diante do conteúdo apresentado na tela do micro. Há inúmeros projetos realizados dessa forma, mas não tão bem sucedidos. Muitas vezes, são desenvolvidos por profissionais com conhecimento tecnológico, mas que não dominam o processo de aprender e ensinar. Este equívoco faz com que opções educacionais de péssima qualidade sejam oferecidas, comprometendo a oferta de serviços mais qualificados.

Universo EaD – A senhora acredita que os profissionais de educação estão preparados para a EaD?

Vani – Sinceramente, não! Meus estudos de todos esses anos mostram que estamos diante de uma nova realidade educacional. Os currículos tradicionais de formação de professores são orientados ao ensino presencial. A formação para a docência a distância, sobretudo o e-learning, necessita de novas competências que não são trabalhadas nem em cursos de formação inicial, nem em atualizações pedagógicas fornecidas pelos sistemas de ensino.

Universo EaD – E o que precisa ser mudado?

Vani Moreira Kenski – É preciso notar que a formação educacional para EaD não se restringe aos aspectos pedagógicos e tecnológicos, ambos essenciais. É preciso mais que isso. É preciso contemplar com estudos e reflexões sobre os novos processos de comunicação, sociais e psicológicos que ocorrem nas comunidades virtuais. Novas formas de agir, de se comunicar e de trabalhar pedagogicamente com conteúdos mediados por tecnologia exigem outro tipo de formação.

Universo EaD – E a senhora acredita que o mercado está em busca destas mudanças?

Vani – O mercado deve se orientar de acordo com a oferta de projetos sérios que mostrem resultados de qualidade. O mundo corporativo já apresenta um grande vigor na incorporação das soluções de EaD. O passo seguinte é fazer com que as empresas se interessem por soluções que vão além do uso das ferramentas digitais para o auto-aprendizado, os tutoriais. Muitas outras possibilidades podem ser realizadas com base na interação e na comunicação dos envolvidos. É possível formar e atualizar profissionais a distância, em comunidades virtuais, com altíssimo nível de qualidade, realizando cursos online cooperativos e colaborativos, baseados na comunicação e troca de informações e experiências entre os participantes. Isto é realidade em todo o mundo. No Brasil, essas iniciativas estão começando a frutificar.

Universo EaD – E na área educacional? As instituições estão preparadas?

Vani Moreira Kenski – No plano educacional, a situação é bem mais lenta. Resultado, principalmente, do preconceito e do medo dos professores e do corpo administrativo mais tradicional das instituições em relação ao uso das tecnologias.

Universo EaD – Então ainda existe preconceito quanto à EaD?

Vani – Sim. Isso ocorre, principalmente, por causa do medo infundado – o mito de que o computador vai substituir o professor – e o desconhecimento. Não se exclui também a acomodação dos profissionais que precisam mudar as práticas docentes, assumir novas posturas e passar a ter um comportamento de permanente atualização profissional. Por outro lado, projetos ruins, a ênfase demasiada aos aspectos tecnológicos e aos conteúdos e o fracasso de algumas iniciativas equivocadas, contribuem para ampliar este preconceito e o estigma de EaD como um ensino de segunda categoria.

Universo EaD – E como reverter isso?

Vani Moreira Kenski – Oferecendo projetos educacionais de indiscutível qualidade pedagógica. Essa tem sido a nossa maior preocupação.

Universo EaD – E esta é uma das propostas da SITE Educacional?

Vani – Sim. A palavra SITE é um acróstico de “Serviços Inovadores em Tecnologia Educacional”. Nossa primeira preocupação é com a formação dos profissionais. Tanto que estamos com inscrições abertas para o curso de Pós-Graduação em “Design Instrucional para Educação on-line”, realizado em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). A atuação desse profissional é muito complexa. É ele quem coordena diferentes profissionais na organização de cursos on-line dos mais variados níveis, desde simples tutoriais, até projetos imersivos de ensino. Por isso, sua formação envolve conhecimentos pedagógicos, fluência no uso de ferramentas e ambientes virtuais de aprendizagem, compreensão dos processos comunicacionais e a gestão de pessoas e de projetos para EaD. Também oferecemos consultorias para o desenvolvimento e implantação de projetos e cursos a distância e para a capacitação de professores e profissionais para o oferecimento desses cursos.

Universo EaD – Seu livro Tecnologias e Ensino Presencial e a Distância foi lançado há dois anos e já está em sua terceira edição. Qual o principal objetivo do livro?

Vani Moreira Kenski – Reflito sobre as alterações que vêm acontecendo na atuação docente, a partir do uso mais intenso das novas tecnologias. Com o livro, pretendo conversar com professores e todos que se interessam por educação e oferecer informações objetivas sobre o "fazer docente", mediado pelas tecnologias. Nos últimos anos houve grandes transformações nas práticas de ensino e pesquisa. As novas tecnologias alteram nossos tempos e espaços de ensinar e aprender. Seja no ensino presencial ou a distância, temos de buscar novas maneiras de agir profissionalmente. Diariamente, professores e alunos vivem o desafio das mudanças nas regras de convivência e nas formas de acesso às informações. Aprendemos que podemos romper os limites físicos da sala de aula e das práticas rotineiras e fazer educação cada vez com maior qualidade.

Universo EaD – Há algum outro título a ser lançado?

Vani – Para 2006, estou concluindo um livro com o tema “Tempos Tecnológicos”, ou seja, sobre as novas temporalidades existentes nas atividades docentes, sobretudo em EaD. A obra será o resultado de pesquisas acadêmicas que fiz nos últimos três anos sobre os novos tempos de trabalho do professor com as tecnologias digitais, sobretudo a internet. Também será lançada uma coletânea em que participo com um artigo sobre Avaliação online. Este artigo foi escrito em parceria com Adriana Clementino e Gerson Pastre Oliveira, dois outros professores da equipe da SITE Educacional.